Fonte: Revista carta Capital, 15/02/2006
Câmbio
Um Projeto Fora de Época
CHEGOU AO CONGRESSO NACIONAL, na quarta-feira 8, um projeto que já nasceu polêmico. Com base em proposta da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o texto prevê o fim da obrigatoriedade dos exportadores de trazer para o País os dólares originados de suas vendas no exterior, a chamada cobertura cambial.Atualmente, há um prazo de 210 dias para fazer a conversão em reais. O projeto propõe ainda que os exportadores possam ter contas em dólares nas instituições financeiras credenciadas pelo Banco Central. O assunto é sujeito a controvérsias porque mexe com um símbolo forte de riqueza, sinônimo de preservação de patrimônio. E também porque o Brasil tem uma memória recente de crise cambial e a mentalidade reinante ainda não é totalmente desdolarizada.
SEGUNDO O ECONOMISTA Ricardo Carneiro, da Unicamp, eliminar a cobertura cambial significaria incitar o capital produtivo do exportador a um comportamente semelhante ao do capital especulativo financeiro. Um perigo para o manejo da política cambial do País, ainda que o BC insista em desconhecer a existência do câmbio. Basta olhar os números. Em 2005, as exportações somaram US$ 118 bilhões, uma massa imensa de dinheiro que, se desgovernada por qualquer esboço de desconfiança, poderia provocar uma séria crise. Na Europa, exemplifica Carneiro, é trivial qualquer cidadão ter contas em dólares. Mas, nesse caso, trata-se de uma relação de igual para igual: moeda forte (euro ou libra, por exemplo) contra moeda forte. E perfeitamente conversíveis. Não é o status do Brasil. É impossível fazer câmbio de reais em praças financeiras que não sejam de alguns vizinhos latino-americanos.
De todo modo, o projeto leva jeito de que não irá adiante. As resistências são fortes entre parlamentares e o próprio governo. Mesmo porque sempre haveria o questionamento envolvendo a isonomia: por que os exportadores podem ter conta em dólar e o cidadão comum não?
Selecionado por:
Ricardo Gammal, Professor de Economia
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Um Projeto Fora de Época
CHEGOU AO CONGRESSO NACIONAL, na quarta-feira 8, um projeto que já nasceu polêmico. Com base em proposta da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o texto prevê o fim da obrigatoriedade dos exportadores de trazer para o País os dólares originados de suas vendas no exterior, a chamada cobertura cambial.Atualmente, há um prazo de 210 dias para fazer a conversão em reais. O projeto propõe ainda que os exportadores possam ter contas em dólares nas instituições financeiras credenciadas pelo Banco Central. O assunto é sujeito a controvérsias porque mexe com um símbolo forte de riqueza, sinônimo de preservação de patrimônio. E também porque o Brasil tem uma memória recente de crise cambial e a mentalidade reinante ainda não é totalmente desdolarizada.
SEGUNDO O ECONOMISTA Ricardo Carneiro, da Unicamp, eliminar a cobertura cambial significaria incitar o capital produtivo do exportador a um comportamente semelhante ao do capital especulativo financeiro. Um perigo para o manejo da política cambial do País, ainda que o BC insista em desconhecer a existência do câmbio. Basta olhar os números. Em 2005, as exportações somaram US$ 118 bilhões, uma massa imensa de dinheiro que, se desgovernada por qualquer esboço de desconfiança, poderia provocar uma séria crise. Na Europa, exemplifica Carneiro, é trivial qualquer cidadão ter contas em dólares. Mas, nesse caso, trata-se de uma relação de igual para igual: moeda forte (euro ou libra, por exemplo) contra moeda forte. E perfeitamente conversíveis. Não é o status do Brasil. É impossível fazer câmbio de reais em praças financeiras que não sejam de alguns vizinhos latino-americanos.
De todo modo, o projeto leva jeito de que não irá adiante. As resistências são fortes entre parlamentares e o próprio governo. Mesmo porque sempre haveria o questionamento envolvendo a isonomia: por que os exportadores podem ter conta em dólar e o cidadão comum não?
Selecionado por:
Ricardo Gammal, Professor de Economia


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