"CIDADE LIMPA, SOCIEDADE SUJA"
Em sua coluna semanal aos domingos no jornal "Folha de São Paulo", de
08/07/2007, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, presidente do conselho
de administração do grupo industrial Votorantim, teceu loas à chamada lei
"Cidade Limpa" sancionada e aplicada pelo atual prefeito da cidade de São
Paulo (SP), Gilberto Kassab (Partido dos Democratas).
Se tal lei e os elogios desmedidos destinados à ela visassem apenas a
adequação da propaganda externa no ambiente urbano, punindo excessos e
preservando construções históricas e espaços públicos, nada haveria para ser
observado ou acrescentado, porém, como nós, cidadãos conscientes já
esperávamos, os desdobramentos de tal lei e as atitudes de seus defensores,
não se limitariam meramente à, digamos, "estética arquitetônica" da grande
cidade.
Cessados os aplausos de Ermírio de Moraes à Lei "Cidade Limpa", prossegue
ele em sua coluna de 08/07/2007:
"(...) O que está faltando, agora, além da retirada das armações dos
anúncios, é uma ação educativa e REPRESSIVA aos pichadores e aos MORADORES
DE RUA que emporcalham as paredes dos prédios e que usam as praças e as ruas
da cidade como dormitórios, banheiros e lavanderias.
Há anos manifesto o meu inconformismo com a inaceitável sujeirada que
tomou conta da cidade. Será preciso fazer uma outra lei para corrigir esse
problema? NA LEI DO CIDADE LIMPA HÁ DISPOSITIVOS QUE SE REFEREM AO COMBATE À
POLUIÇÃO VISUAL, bem como à degradação ambiental. Quer mais degradação do
que o emporcalhamento da Biblioteca Municipal Mário de Andrade? OU GENTE QUE
DORME, URINA E LAVA ROUPA EM PLENA PRAÇA RAMOS DE AZEVEDO, NAS BARBAS DO
CARLOS GOMES?
(...)Não é possível continuar com esses maus exemplos.
O turista que vem a São Paulo fica com a impressão de ter chegado a um
planeta diferente, onde nada se entende do que é escrito nas paredes e tudo
se faz nas ruas e nas praças.
A cidade merece um tratamento condigno em vista do que já fez e continua
fazendo para o progresso econômico e social de São Paulo e do Brasil."
(as letras garrafais são minhas...)
Ou seja, a lei da "Cidade Limpa" sobrou para alguém!
Pobreza virou caso de polícia!
Quando, em seguida aos ataques terroristas de maio de 2006 na Capital de
São Paulo, que tanto nos transtornaram e indignaram, o então governador
Cláudio Lembo disse que "sou velhinho e velhinho fala o que bem quer" e que
"existe neste país uma elite branca perversa", achei que havia exagero nas
palavras daquele senhor.
Onde neste país de mulatos, caboclos/mamelucos e cafuzos se encontraria
esta espécie rara, obviamente em extinção, "uma elite branca perversa"?
Cláudio Lembo, como disse Fidel Castro a respeito de Khrushchev, é "mais
velho e mais sábio" que a maioria de nós, portanto devia ter lá suas razões,
como podemos constatar agora, pois parece que a dita espécie rara deu o ar
da sua "graça".
"O tempo é o senhor da razão", como se lia em anos idos a camisa de um
"emergente"! e sobrevivente da política...
Outra constatação óbvia é que "o Antônio Ermírio de Moraes é velhinho
também, e velhinho fala (ou tem, ou reserva-se o direito) o que bem quer."
De fato, Ermírio de Moraes há anos vem manifestando sua repulsa a certos
aspectos peculiares das vias públicas da cidade São Paulo, no que
concordamos todos: a rua não é moradia (como disse Barbara Gancia, não
existem "moradores de rua", portanto, a expressão é uma contradição em
termos), banheiro, ou lavanderia.
Só parece esquecer-se o também "velhinho" Ermírio de Moraes que, com ou
sem educação (ou repressão) social e cívica, a obrigação de zelar pelas vias
públicas é da prefeitura do município, mais sujas ou menos sujas, havendo ou
não infração ou falta de educação.
Seria interessante conhecer as idéias do ancião em questão, grande
contribuinte de impostos, à omissão das autoridades municipais que ele tanto
louva.
Ignora também o senhor Ermírio de Moraes, não obstante seja empresário do
setor de material para construção, que o Brasil e (principalmente) a cidade
de São Paulo tem imenso deficit habitacional: falta moradia (entre outras
coisas) e quem tem condições de arcar com a moradia, dificilmente é
proprietário ou pode adquirir uma, por mais modesta que seja.
Anos atrás, o Bank of Boston, parceiro do grupo Votorantim numa entidade
chamada "Associação Viva o Centro", patrocinou a publicação de um trabalho
descritivo das atividades da Fundação Projeto Travessia (entidade, por sinal
considerada como tendo "desempenho pífio", pelas autoridades municipais,
perdendo o convênio que com elas mantinha), intitulado "Histórias Reais",
sobre o trabalho voltado para crianças e adolescentes em situação de rua.
O que mais me impressionou naquele texto foi a declaração por um dos
participantes do projeto (que ilustra bem a realidade tanto de adultos como
de menores que "usam as praças e as ruas da cidade como dormitórios,
banheiros e lavanderias") de que "ninguém vai para a rua porque quer", uma
verdade, infelizmente, desconhecida e constantemente negada por muitos
profissionais de atendimento a essas pessoas.
O "vilão" nesta opereta de enredo barato é óbvio: o poder público,
notoriamente, a administração municipal e seus orgãos, que não provém
políticas sociais suficientes e nem sequer acolhida digna para os pobres (o
verdadeiro nome do segmento eufemisticamente chamado de "população em
situação de rua", "moradores de rua", "mendigos" e outros epítetos mais
ultrajantes ainda).
Novamente parece o senhor Ermírio de Moraes ignorar que, não por força de
caridade, mas por obrigação legal, a acolhida e garantia de políticas
sociais inclusivas é obrigação do poder público municipal, a quem ele
certamente tanto contribui assiduamente com seus impostos.
Ou se trataria de amnésia da parte do bom velhinho?
Se tal for o caso, felizmente, ele pode recorrer aos serviços médicos
exemplares do Hospital Beneficência Portuguesa, ao qual por tantos anos se
dedicou, e no qual teria travado contato com a realidade dos humildes, a
julgar por sua declaração de 2003 de que "o pobre não quer esmola (Fome
Zero, Bolsa-Família, etc.), o pobre quer emprego".
Não que a lucidez tenha desertado nosso ilustre ancião. Ele quase acerta
na descrição da realidade das pessoas que se encontram jogadas às vias
públicas ao palpitar sobre a impressão de um hipotético turista ( de
"primeiro mundo", decerto... mas que bobagem, o "segundo mundo" não existe
mais!) que andasse pelas ruas e praças "emporcalhadas" de nossa amada
Capital Bandeirante.
De fato, as pessoas carentes jogadas às ruas não estão num "planeta
diferente", mas vivem, isto sim, num mundo diferente do confortável,
estético e esterilizado mundo de Antônio Ermírio de Moraes. Um mundo
chamado "exclusão".
E vieram em sua maioria, de outro mundo também diferente do que habitam
agora. Um mundo chamado "inclusão". Alguns jamais tiveram o privilégio de
conhecer tal "planeta."
Sejamos claros, o que ocorre há anos aqui na cidade de São Paulo,
inclusive influenciando administração após administração, é que existe um
"lobby" influente (e George Soros pergunta-se por que os lobbies tem má
reputação no Brasil...) visando, em seus delírios, ou restaurar a São Paulo
de quase um século atrás (e que nossos "velhinhos" viram em sua saudosa
infância) ou adaptar a cidade atual aos padrões urbanos e estéticos das
grandes cidades "civilizadas" pelo mundo afora.
Ora, para concretizar-se este "projeto prioritário" ( isso num país de
"primeiro mundo" como o Brasil, onde a "modernidade" já leva quase duas
décadas nas costas) é preciso remover-se alguns obstaculozinhos, digamos,
"anti-estéticos", que não combinam com a paisagem desejada.
Em anos recentes, um "sub do sub do sub" local já havia manifestado suas
idéias para o centro de São Paulo ao suplemento local da revista "Veja":
"carroceiros e mendigos saem de cena".
A ignorância ou a amnésia, mesmo daqueles não tão "velhinhos" ainda,
parecem ser epidêmicas, talvez algo relacionado ao "jet-lag" experimentado
por nossas elites ao retornarem de viagens internacionais. Nossos cientistas
deveriam investigar isso...
Pois, ignoram ou esquecem-se esses senhores de que nas grandes cidades do
"primeiro mundo" (por que será que ele já foi considerado "primeiro", hein?)
ou de "países emergentes" (país emergente é aquele que está passando por
emergência?), ou mesmo em exemplos de revitalização urbana nem tão famosos
ou distantes (alguns gerenciados por aves da mesma plumagem das locais), os
projetos semelhantes passíveis de serem considerados "gentrificação",
"limpeza social" ou "higiene social" foram acompanhados de contrapartidas
sociais igualmente vultosas, ou seja, programas de inclusão diversos:
habitação, capacitação, educação, amparo social, renda, subsídios como
seguro desemprego, auxílio moradia (alguém aí lembra da famigerada
Bolsa-Aluguel?), etc. Essas medidas evitam que os humildes retornem às ruas
ou que ocorram novos processos de degradação urbana.
Não se tratam de realidades utópicas, futuristas ou coisas de ficção
científica. Recentemente, em editorial, o jornal "O Estado de São Paulo"
defendeu o retorno da Bolsa-Aluguel (que volta e meia recebe decisões
favoráveis da Justiça, mas nunca é paga pela prefeitura) como forma de
combater a favelização e o desabrigo dos munícipes.
Isto teria muito mais sentido do que jogar a culpa da degradação urbana
nos hoje impotentes e empobrecidos, muitos dos quais "tanto já fizeram pelo
progresso social e econõmico de São Paulo e do Brasil."
Afinal, foi a mesma elite que abandonou as antigas áreas nobres,
afastando-se da região central da cidade, e lançando-a num processo
previsível de favelização horizontal e vertical (a especulação imobiliária É
documento!).
Ou devemos continuar a nos degladiar numa luta de classes fratricida, até
a extinção das espécies "humanas e alienígenas" (ou serão "seláquios"
contra "maloqueiros") que habitam a mesma cidade?
H.G.Wells imaginou que a luta de classes, esta "senhora tão sedenta de
sangue", tantas vezes já declarada morta e enterrada, resultaria na
canibalização das elites pelo proletariado, mas ao que parece, graças às
novas tecnologias e aos modernos processos econômicos, atualmente as elites
dispensam a proximidade dos pobres, como se pudessem sozinhos manter ou
justificar suas riquezas.
Wells estava errado: agora são os Eloys, belos e delicados, que resolvem
praticar a "canibalização" social e urbana dos Morlocks, repulsivos e rudes!
Paulo Ivan Moreira Fonseca