Wednesday, February 22, 2006

Olha só quem está falando...

Delfim Netto na Folha de São Paulo, em 08/02/2006

(...) Como foi possível isso (a crise econômica de 1930) ocorrer se a teoria econômica "garantia" o pleno emprego?
(...) A organização produtiva chamada de "capitalista" revelou desde cedo a "trindade maldita": 1) apesar de relativamente eficiente, o sistema deixado a si mesmo tem dificuldade de eliminar a pobreza; 2) o seu funcionamento altamente competitivo tem a tendência de acentuar as desigualdades entre os indivíduos e, 3)em determinados momentos, ele se ajusta mais fortemente, produzindo desemprego de caráter patológico.
Foi a constatação prática dessa "trindade" que inspirou as críticas, do ponto de vista moral, dos diversos "socialismos utópicos" e, do ponto de vista moral e prático, do "socialismo científico" de Marx e Engels. Marx, a partir de uma brilhante antropologia, propôs uma outra "explicação do mundo" e uma outra organização social da produção, que superaria a "trinadade maldita".
(...) Hoje sabemos que a teoria monetária e a política do FED, inspiradas na realidade dos anos 30, em lugar de minorar, provavelmente aprofundou a crise.
(...)Lembremo-nos de que a teoria econômica de então "garantia emprego a todos que pudessem e se dispusessem a trabalhar em troca do salário real de equilíbrio". Essa mesma "garantia" é dada hoje pela teoria neoclássica incorporada pela grande maioria de nossos atuais economistas. Aliás, um grande Prêmio Nobel (antes de se apaixonar pela teoria do desenvolvimento) dizia que todo desemprego é "voluntário", produto do ataque de "preguiça" que de tempos em tempos se abate sobre os trabalhadores... (...)

Tuesday, February 21, 2006

Fonte: Revista carta Capital, 15/02/2006

Câmbio

Um Projeto Fora de Época

CHEGOU AO CONGRESSO NACIONAL, na quarta-feira 8, um projeto que já nasceu polêmico. Com base em proposta da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o texto prevê o fim da obrigatoriedade dos exportadores de trazer para o País os dólares originados de suas vendas no exterior, a chamada cobertura cambial.Atualmente, há um prazo de 210 dias para fazer a conversão em reais. O projeto propõe ainda que os exportadores possam ter contas em dólares nas instituições financeiras credenciadas pelo Banco Central. O assunto é sujeito a controvérsias porque mexe com um símbolo forte de riqueza, sinônimo de preservação de patrimônio. E também porque o Brasil tem uma memória recente de crise cambial e a mentalidade reinante ainda não é totalmente desdolarizada.

SEGUNDO O ECONOMISTA Ricardo Carneiro, da Unicamp, eliminar a cobertura cambial significaria incitar o capital produtivo do exportador a um comportamente semelhante ao do capital especulativo financeiro. Um perigo para o manejo da política cambial do País, ainda que o BC insista em desconhecer a existência do câmbio. Basta olhar os números. Em 2005, as exportações somaram US$ 118 bilhões, uma massa imensa de dinheiro que, se desgovernada por qualquer esboço de desconfiança, poderia provocar uma séria crise. Na Europa, exemplifica Carneiro, é trivial qualquer cidadão ter contas em dólares. Mas, nesse caso, trata-se de uma relação de igual para igual: moeda forte (euro ou libra, por exemplo) contra moeda forte. E perfeitamente conversíveis. Não é o status do Brasil. É impossível fazer câmbio de reais em praças financeiras que não sejam de alguns vizinhos latino-americanos.
De todo modo, o projeto leva jeito de que não irá adiante. As resistências são fortes entre parlamentares e o próprio governo. Mesmo porque sempre haveria o questionamento envolvendo a isonomia: por que os exportadores podem ter conta em dólar e o cidadão comum não?

Selecionado por:

Ricardo Gammal, Professor de Economia